“Depois de criarmos uma grande rede digital, com cerca de 130 mil mulheres, passamos a buscar um sentido maior a ela. No último ano, fizemos uma grande busca por autoconhecimento e estivemos em contato com ferramentas que nos ajudaram como mulheres, e que podem ser compartilhadas com outras que participem conosco – seja através da nossa comunicação ou de nossas vivências. Passamos a trabalhar com o surf e o mar como uma ferramenta, uma medicina, transmitindo sua essência e o quão sagrado são!” Vanessa Bertelli, sócia-fundadora Longarina.

Olá, leitor, leitora! Neste momento você provavelmente está desfrutando de uma pausa, relaxando. Se for um assinante fiel ou leitor assíduo da HC, estamos em dezembro. Provavelmente, mais um dia quente, típico de verão. Já eu, no instante dessa escrita estou em novembro. Escrevo esta coluna numa semana em que a chuva não dá trégua.
Quero te contar nesta edição, como foi ter feito parte de um grupo de 20 mulheres querendo aprender a surfar. Algumas delas nunca haviam pegado numa prancha. Publicitária, artista plástica, diretora de filme pornô, mãe, autônoma, empresária. Grupo eclético. Tinha de tudo. Mas antes, precisaremos voltar um pouco no tempo. Precisamente, 15 de novembro de 2015. Primeiro campeonato brasileiro feminino, depois do grande limbo de quatro anos em que a modalidade foi exposta. Este é o fato, em que eu e Van Bertelli, sócia-fundadora da Longarina, nos conhecemos.
Meses depois deste célebre primeiro encontro. Abri minha casa a ela, e entre chás e generosas fatias de chocotone, a ouvi falar sobre redes, surf, longboard, bodyboard, machismo, empoderamento feminino, panelinhas, intrigas e até uma história bizarra envolvendo agressão. Eu abri meu coração, falamos durante horas, e nos despedimos com a sensação de que com tanta cumplicidade e paixão pelo surf, aquele encontro ainda renderia muita coisa boa.
Depois daquela noite, escrevi minha primeira matéria para a Longarina. Um texto interessante que contava a história de um casal que largava tudo pra viver de maneira simples em um paraíso da América. O título da matéria era “Faça as malas, a vida é agora!”. (O detalhe: eu e Fi, meu marido, faríamos exatamente o mesmo, um ano mais tarde, quando deixamos SP pra trás).

O que ninguém sabe, até agora, é que aquela matéria era para ter sido publicada em outro veículo, mas que, por motivos editoriais, acabou não sendo aprovada. Então, fui salva pela Longarina, que publicou lindamente a matéria. A Longarina não só salvou a minha pele (não tem nada mais chato pra mim do que entrevistar alguém e depois falar que a pauta caiu), como também inspirou e encorajou minha decisão de criar o blog, OrigemSurf.  E se não fosse ele, o blog, eu não estaria aqui hoje contando isso pra você (mas isso também não vem ao caso agora, pois vou deixar essa história para outro artigo).E depois desta introdução, vamos voltar ao presente.

17 de novembro de 2017, 8h da manhã. Chego ao encontro de boas-vindas e café. Em meio, literalmente à Mata Atlântica, em um hostel fazenda escolhido para abrigar o grupo, já consigo ver algumas mulheres reunidas.
Timidamente me apresento, procuro algum sinal da Van, mas não encontro. Então aproveito para conhecer algumas participantes do grupo.
Com algum atraso começamos, e com uma gostosa mesa de café da manhã, finalmente conheço a Cris, (Cristiane Brosso, a outra “metade” da Van, fundadora e diretora de operações da Longarina). Uma mulher exuberante, forte, com músculos definidos, cabelos longos cacheados e brilhantes. Se vidas passadas existem, ela certamente deve ter sido uma guerreira Samurai ou algo do tipo.
Ali compreendo que estamos falando de duas forças. Van e Cris não se contentam com o pouco que nossa sociedade reserva às mulheres. E muito menos com o machismo, nem com o preconceito que rola com quem está aprendendo a surfar, os chamados “pregos”.

Depois de uma aula de funcional e uma caminhada de 20 minutos chegamos ao canto de Itamambuca. Pico reconhecido nacionalmente por suas longas direitas, seu localismo e sua exuberância. As cerca de vinte meninas vestiam lycra azul, portanto eram fáceis de serem identificadas. Divididas em grupos, entramos todas na água.
Na queda vi muitas surfarem a primeira onda da vida, vi também as primeiras cicatrizes. Duas delas saíram do mar com sangue no rosto. Uma pranchada na cabeça, outra na testa. Tirando o susto, elas pareciam bem e satisfeitas com a experiência no surf.
Foi uma viagem ao meu passado. Dividi minhas vicissitudes com elas. Contei do nariz quebrado por uma pranchada, da quilhada que rendeu inúmeros pontos na perna. E que nada disso me fizeram parar, pelo contrário. Ouvi sobre medo, insegurança, vontade, superação.

Durante a tarde mais novidade. A atividade intitulada como “Vivência Longarina”, talvez minha maior surpresa durante todo o encontro. Num grande círculo, fomos convidadas a uma espécie de relaxamento profundo, ouviríamos apenas os barulhos da mata, dos pássaros e de um tambor. Com os olhos fechados, sentia aromas distintos. Palo santo, alecrim, cheiro de mato. O lance com o tambor viria mais tarde.
Nos primeiros momentos só via à minha frente uma espécie de espelho. Me via refletida nele. Via meu rosto, minhas marcas, minha idade, meus ombros, minha postura, meu estômago, meu ventre. Ao passo que o som do tambor foi chegando mais perto, consegui finalmente “quebrar” aquele “espelho” a minha frente. Em uma espécie de libertação, não via mais minha imagem e entrei num estado profundo de relaxamento. Era esse o tal contato com o sagrado feminino?!

O som vibrante do tambor se fundiu aos sons do meu corpo, algo lisérgico, sexual, profundo.
Voltei pra casa mergulhada num sentimento de prazer. Me peguei dançando sozinha enquanto preparava algo para comer. Eu era pura alegria. A noite caiu e com ela uma chuva torrencial atrapalhando meus planos de ir à festa. No dia seguinte, acordei cedo e como de costume (péssimo aliás) minutos depois de abrir os olhos já estava no celular conferindo mensagens, redes, etc. O próximo encontro estava marcado para dali uma hora, novamente às 8h da manhã. Van havia visualizado o aplicativo de mensagens pela última vez às 5h da manhã. “A festa deve ter sido boa”, pensei. Mandei mensagem e nem sinal das meninas. Então, fui surfar.
Nos desencontramos ao longo do dia. O feriado voou como um piscar de olhos e as meninas foram embora sem que eu pudesse agradece-las pessoalmente sobre o que eu havia ganhado com aquela experiência.

Surfar ainda é a principal razão de a Longarina existir, certamente. Porém, aquelas vinte mulheres e eu, puderam sentir coisas tão fortes, ou mais, quanto a experiência do primeiro drop, da primeira parede ou da primeira pranchada. A Longarina é realmente o que chamamos de case. E ela é isso, porque atrás dessa marca tem duas mulheres muito fortalecidas, entrosadas e preparadas para transmitir amor e autoconhecimento à diversas outras mulheres.

Se elas são pregas, haoles, ou se estão crowdeando o pico, pouco me importa. O que eu sei é que elas são foda!
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Matéria por Janaína Pedroso, jornalista fundadora do site www.origemsurf.com.br , matéria publicada na revista HardCore de Dezembro

Foto de capa por Suellen Nóbrega