No último final de semana (14-15) durante a etapa do campeonato Skol Ultra Surf Feminino , a jornalista Janaína Pedroso entrevistou o atual diretor executivo da ABRASP, Pedro Falcão, em busca de respostas sobre o atual momento do surf feminino brasileiro, como a ausência de campeonato e pouco incentivo às atletas.

A matéria foi publicada no site da revista TPM e gerou grande repercussão, a declaração do dirigente ofendeu profissionais do surf feminino do país todo, que como resposta se mobilizaram nas redes sociais para mostrar o descontentamento quanto à declaração publicada. Em nota explicativa ao canal do movimento Surf Feminino Sim, Pedro Falcão se posicionou dizendo que o trecho utilizado nas redes sociais, retirado da matéria em protesto, foi na verdade descontextualizado e que sempre fez o possível para levantar a bandeira do surf feminino nacional.

Buscando esclarecer os fatos com transparência, segue a matéria de Janaína Pedroso na íntegra.

 

JP:  Qual seu nome completo Pedro?

Pedro Falcão

JP: Qual seu cargo na Abrasp? Tour-manager?

Na, verdade eu sou o diretor executivo Abrasp. Nesse evento eu estou fazendo o papel de tour manager, porque eu sou do Rio é mais próximo do evento. Então demos uma adaptada pra ajudar na realização do evento de hoje.

JP: Quanto tempo a ABRASP existe Pedro?

Desde 1987, na verdade ela a ABRASP foi fundada em 1986 e em 1987 tivemos o primeiro circuito.

JP: Estamos aqui diante de um evento lindo, com público presente, as meninas surfando felizes e celebrando. Mas o cenário do surfe competitivo feminino não é bem esse, o contexto geral é outro. Hoje muitas mulheres estão longe das competições pela falta da existência de um circuito. Como você enxerga esse cenário?

Na verdade eu acho que são tantas coisas. Nós temos um plano de trabalho na ABRASP para o surfe feminino que é baseado em três vertentes: uma é o campeonato, a outra é o apoio às surfistas de base, e a outra é trabalhar algumas atletas especificas que são as mais talentosas para tentar buscar por resultados. Porque qualquer esporte só sobrevive em cima de resultados. Esse é nosso plano de ação. As empresas hoje que são ligadas ao surfe elas não investem no surfe feminino, uma grande parte delas até deixou de produzir a linha feminina. O surfe feminino não é atraente para uma mídia, ele não tem ícones, personagens pra se tornar um esporte que vá movimentar muita gente, impactar muita gente.

JP: E isso no meu ponto de vista é uma “bola de neve”, se não há competição você não incentiva a prática, e em conseqüência o desenvolvimento do esporte, se o esporte não se desenvolve atletas não surgem certo?

Não, acho. Temos o caso do Medina por exemplo. Que apareceu num momento ruim da economia, mas em um momento muito feliz sobre a necessidade de um ídolo. A própria Globo comprou isso porra. Você estava vendo novela e de repente entrava ao vivo um anuncio do Medina no Havai sendo campeão. Isso não tem preço. Os caras dominam mesmo, todo mundo sabe sobre o poder da Globo. Daí você fala com um público que você vai realmente impactar. Marcas como Guaraná, marcas grandes do mercado não estão interessadas em falar com o nicho, por que é como se estivessem falando com a mesma pessoa dez vezes. Se ela colocar um anúncio em uma revista, num site ou fazendo um campeonato ela está falando com a mesma pessoa. E as marcas procuram ampliar esse universo. O Medina foi isso. Ele foi pra rede nacional, eu vejo assim.

Érica Prado por @MariannaPicolli

Érica Prado por @MariannaPicolli

JP: É mas se pensarmos também nos homens, quantos profissionais têm realmente chance de se sustentar como atleta?

Mas isso é em qualquer esporte. Na Inglaterra não é todo mundo que joga no Manshester. A gente é que tem que provar isso. Se o Filipe Toledo for campeão agora, e se outros atletas chegarem à elite, a gente vai provar a chance que o surfe está tendo.

JP:  Então o surfe feminino precisaria de uma “Medina”?

Não, algum movimento. Alguma coisa a mais. Ou então uma menina linda que pegue onda e seja modelo. Tipo a Gisele Bundchen, que tenha o poder de levar o surf para a massa da população e não só atingir o nicho que já existe e consume o esporte. Falta participação de pessoas que tenham um poder de persuasão maior.

JP: Dentro do pouco conhecimento que eu tenho sobre organização de circuitos, qual a dificuldade prática de inserir o feminino? Porque no caso do SuperSurf desse ano, as mulheres ficaram de fora?

O SuperSurf foi uma questão de tempo na verdade, eram 160 surfistas para cinco dias. Já é gente pra demais.

Nós não temos muitas mulheres no circuito, não daria para de alguma forma incluí-las?
Mas sabe o que acontece? O surfe feminino tem algumas coisas que tem que resolver também que é a questão da estética, ação e velocidade. Por que hoje o circuito mundial feminino tem um nível de surfe bem melhor.

JP: Talvez porque elas tiveram oportunidade de competir? As australianas, havaiana e americanas, por exemplo, são apoiadas a competirem, não? Você não acha que o machismo no Brasil atrapalha o desenvolvimento das atletas profissionais?

Não, não acho não. Acho que é oportunidade na verdade. Não tem machismo. Quem está aqui trabalhando não está vendo se é homem ou mulher, está trabalhando. Eu organizei durante 10 anos o circuito da Petrobrás Feminino, e quando acabou eu chorei pô. Temos uma projeto de surfe feminino da Abrasp que está no mercado, mas a questão é como você vai inserir isso, também? Vai pegar 16 meninas pra correr o feminino (se referindo ao SuperSurf) daí pega elas e coloca às 7 horas da manhã, 17h30 da tarde, coloca quando o mar está ruim. No circuito mundial é assim que acontece. Então não podemos pensar num projeto feminino dessa maneira, senão estamos indo contra nosso próprio produto, é trabalho, é um desafio.

JP: Se o cenário do surfe brasileiro é difícil para o feminino então?

Está muito difícil. Daí você vê a surfista Nathalie Martins do Paraná, encontrei ela e ela me disse que está trabalhando com gestão ambiental, gente boa, surfa legal, Ana Paula Melo

JP: Porque o circuito não foi adiante?

A crise. O surfe era bancado pela Petrobras toda a base do circuito brasileiro era apoiada com as etapas da Petrobras, Seletiva Petrobras, Brasil Surf Pro, Rico Longboard, a base do surfe brasileiro era bancada pela Petrobrás, isso criou uma certa estagnação, foram 10 anos com esse projeto então, e a gente não evoluiu muito, daí chegou uma hora que a Petrobrás saiu. E ficamos dois anos, 2012 e 2013 sem circuito brasileiro. Teve uma etapa em Noronha de 60 mil reais, coisas aleatórias, outro evento em Pernambuco, Macaé, e fomos conseguindo fazer as etapas assim, até o Medina ser campeão mundial. 2014 tivemos um circuito fraco e pobre, ai ele foi campeão e as empresas voltaram a se interessar, só que com a crise o mercado ficou cético e todos direcionaram seus incentivos ao Medina, tanto que a prancha dele não cabe mais patrocínio. Porque as marcas queriam investimentos seguros, só que daí começou Filipe ganhar, Minero ganhar, o que a Oi fez? Reuniu todos os melhores atletas, e o que ela faz? Ela ( a Oi) inibi qualquer outra empresa de telefonia do mercado de entrar. Ela patrocina o Filipinho, o Mineiro, Medina, Silvana. Qual empresa de telefonia que vai pegar quem? Que atleta? Os caras pegaram todo mundo. Ai veio a vitoria do Filipe no Rio, pros evento foi essa vitória que fez a diferença, uma semana depois eu estava sentado na Oi fechando o SuperSurf, então foi a vitória do Medina que fez essa mudança.
Você está gravando tudo isso?

JP: Ahan

Pensa bem no que você vai botar em? Também não falei nada demais né? Estou te explicando tudo. Estou te dando uma visão de quem faz a gestão

JP: Já cheguei a ter patrocínio mas decidi não ir a diante. Eu me sentia mal por ser surfista, sofri preconceito na água, já ouvi de surfista pra eu ir pra casa pilotar fogão, por exemplo, é triste.

Você não levou em consideração isso né? Isso é uma coisa que eu posso até falar mas não penso isso!

JP: Mas muita gente pensa!

Pensa nada, acho que neguinho fala pra incomodar a mulher
Os homens pensam que no surfe feminino só existem lésbicas, que não é “coisa” pra mulher, já ouvi muito isso
Eu convivo com lésbicas, já dividi quarto com elas mas tem realmente e o número de meninas lésbicas no esporte é grande

JP: Mas como em qualquer esporte né?

É Não é fácil não! Se chegar uma menina linda isso vai mudar, a Silvana, por exemplo, coitada sofre um preconceito gigante por causa disso, ela fala mal, não é bonita. As pessoas têm preconceito. E não adianta também ser só bonita tem que ter talento, plasticidade.

JP: Como a Alana, que é linda e surfa bem?

É daí você vê o Medina, tem uma plasticidade que o feminino não vai ter, é difícil você vender também por isso. Temos um planejamento e se não acontecer nada de errado o surfe vai explodir ainda, vai ter muito espaço.
Hoje são quase 100 meninas aqui certo?

Não tem cerca de 56 profissionais, mais umas 20 que correm amador. E tem gente que correu nas duas categorias. Numero de surfistas é uma coisa e número de vagas preenchidas é outro, tem gente que que veio com os pais, está muito legal mesmo o evento. Elas fizeram um trabalho que eu vou te falar a Nathalie Martins me procurou no SuperSurf. O Wiggolly Dantas ter tido esse desprendimento de usar a imagem dele pro surfe feminino, difícil você ver uma pessoa se dispor a imagem. Se você for ver está legal, mas não tem muito acabamento, coisas que podem ficar mais elegantes. Com o dinheiro que eles tiveram e com a experiência que eles têm, ta ótimo. E tem uma coisa que é o sentimento de todas as meninas que deixa o evento maneirissimo.

JP Tem mais alguma coisa que você gostaria de dizer?

Não, falei pra caramba!