Quem diria… há 5 anos na Longarina e jamais parei pra me ligar que nesse universo surfístico eu deveria ter entrado pela porta da frente, pelo princípio, se não pelo básico mais profundo que eu poderia imaginar! Começar no surf pela PRANCHA! É lógico! pelo instrumento obrigatório e tão significativo!

Calma Van… Uma prancha é só uma prancha!… Não! Uma prancha é mais que uma prancha, é algo sagrado, um … portal! Acha que não? Então lá vou eu:

Há alguns “milanos” atrás, o processo de fabricação de uma prancha tinha um significado bem mais profundo. As pranchas eram feitas de madeira, mas não madeiras de qualquer árvore, eram de árvores especiais, rezadas. Essas árvores eram escolhidas por um “xamã” da tribo, que pedia permissão para cortar a árvore e agradecia à Terra (Pachamama) pela permissão que era dada. Essa madeira sagrada era shapeada (cortada, moldada) e durante o processo todo o shaper (quem faz a primeira fase da prancha) entrava em seu rezo, mentalizando e emanando boas energias à prancha e a quem fosse surfar com ela! Estava ali um objeto sagrado de conexão d@ individu@, com o surf e o mar!

E foi nesse embalo que fui shapear pela 1.a vez, invadi a sala da FLAP boards, formada pelos irmãos Felipe, Lucas, Andre e o amigo Pedro que transformam a amizade e a paixão pelo surf em uma nova jornada! 4 fissurados por surf que se dedicam de alma nessa engenharia/arte que é fazer uma prancha.

E fui lá eu, entender, no bloco da prancha do Fê, louco por surf (que responsa), os mínimos detalhes. Generosamente recebi a parte de cima do bloco pra começar a brincadeira, dividindo o shape com ele.

Img: FlapBoards

A primeira pergunta que fiz foi: COMO NÃO FIZ ISSO ANTES? e a primeira sensação foi de: UAU! QUE TESÃO deslizar essa lixa sobre o bloco. Pode parecer exagero, foram só algumas idas e vindas com a lixa mas o contato com o realizar algo, ver algo começar e acabar, sentir-se realizadora (no caso participante) é muito empolgante.

Durante o processo, muitos insights brotavam! Shapear é extremamente terapêutico, chega a ser uma meditação e exige um grande estado de presença, qualquer marcação errada ou “comida” a mais de bloco com a lixa pode colocar a prancha a perder. Nisso ví total relação com o que aprendi com a Cris no surf, o mesmo estado de presença no mar é necessário, do contrário você perde a onda e esse tal estado devia ser mantido em nossas 24h né? Vivendo o presente e não o passado que já foi ou o futuro que nem aconteceu.

Me impressionei como algo pode ser tão exato e tão artístico ao mesmo tempo? São os dois lados do cérebro em ação! É uma engenharia com suas marcações, seus 3 1/4 de alguma coisa, litros e réguas somados ao feeling e tato que muitas vezes o olho percebe e o shaper entende que um lado ficou maior que outro, precisando de mais uma lixada sem nem tocar no bloco.

Img: FlapBoards

O bloco, de PU (poliuretano) chega com ranhuras, gominhos ao longo dele que serão retirados com o lixamento. A sala de shape da FLAP é preparada com uma luz branca e paredes metade azul e metade branca (como a maioria das salas, que também podem ser toda escura), lá o azul fica embaixo, isso ajuda a descansar os olhos no campo de visão do shaper que passa um tempo ali fixado no bloco branco sob a luz clara.

Chamou a minha atenção ver que assim como a luz, as sombras são fundamentais no processo, é colocando o bloco contra a luz e fazendo sombra que ele irá ver as imperfeições e poderá trabalhar encima delas deixando o bloco mais perfeito possível.

Se isso não for um paralelo de: Olhar pra sí, encarar suas sombras e piores características, se analizar e daí tentar melhorar, chegando em suas curas … Eu não sei mais o que é!

E por fim (Só pq preciso terminar essa matéria, do contrário seria um livro), a relação que se cria ao fazer a própria prancha. Não fiz a minha (ainda) mas ter consciência do significado e por quês de cada curva, cada concave ou double concave, bottom, quina, transição na borda, e o melhor, o que cada um significa pro seu biotipo que vai ocupar aquele espaço sobre a prancha, seja você iniciante ou pró do surf, dá uma sensação de realização, pertencimento e conexão com aquilo,

Se dá isso de fora d”água, imagina dentro com a cria no pé?

Depois do shape pronto vem a laminação, mais uma alquimia que eu espero acompanhar em breve pra voltar e contar à vocês

Nessa busca nossa na Longarina de ressignificar o surf, trazendo mais da sua raiz e do sentimento verdadeiro de pessoas que também estão nisso com amor, fica bem claro que uma prancha não é só uma prancha, cada shaper, cada profissional ali atrás é únic@, cada um (a) com seu estilo e sua técnica que vai de encontro com a vibe d@ surfista don@ da prancha.

Sonhamos com mais mulheres mão na massa, ou melhor, mão no bloco! Quer se inspirar, saber e fazer mais? Escreve pra gente aqui! E ah!!! Vem ler também sobre o CongoProject, duas mulheres féras também nessa estrada.