Quando resolvemos escrever esse guia de shapers do litoral de São Sebastião a intenção era apresentar apenas algumas informações básicas sobre cada um dos profissionais e de seus produtos, porém quando fui conversar com o Johnny Cabianca, considerado um dos melhores shapers do mundo, me empolguei e quis saber de TU-DO e ele foi super atencioso! A conversa que era para durar alguns minutos durou algumas horas e eu o fiz se atrasar para o almoço.

Nome: João Cabianca, conhecido como Johnny Cabianca          

                    assinatura   

Brincadeira de menino – “O que você quer ser quando crescer?” Com certeza shaper não era uma das respostas que Johnny daria na infância, até porque na época surf era considerado coisa de marginal, mas desde novinho já se divertia fazendo trabalhos manuais. Ajudava a mãe a pintar santinhos para o bazar da igreja e gostava de pigmentar resina para enfeitar vitral.

O amor pelo mar vem desde cedo também, quando pequeno, 3 ou 4 anos de idade passava as férias com a família em Bertioga. “Final da década de 60 a região não tinha nada, era longe de tudo, as vezes íamos visitar o tio Mário na Ilha Bela, o caminho era feito pelas praias, na época não tinha nem projeto de estrada, passávamos o dia viajando, mas quando chegávamos era uma delícia, ficávamos lá no mínimo uma semana.”

Depois a família passou a frequentar o Guarujá, onde ele descobriu a paixão pelo surf, mas seus pais não o deixavam ter prancha, devido ao preconceito da época. Era década de 70 quando o seu irmão mais velho começou a trabalhar e comprou a primeira prancha, uma Costa Norte. “Durante uns dois verões a gente a dividiu e começamos a conhecer a galera do surf, só se falava e pensava em surf!”

“Passei a fazer consertos para os amigos e aprendi a mexer com resina, por diversão mesmo. Tudo era um mistério, não tínhamos referência, as revistas que vinham de fora eram poucas e a gente mal sabia ler em inglês. Quando íamos à uma loja comprar material, o balconista não fazia ideia de qual resina poderia ser usada em uma prancha de surf.”

Refugio da galera do surf na Lapa – “Em 1981, quando eu tinha 16 anos um amigo alugou uma casa em São Paulo, na Lapa, para fazer remendos e pinturas de prancha. O banheiro virou a sala de lixa, um quarto sala de laminação, o outro de pintura.” Johnny da risadas e conta que foram expulsos em 1982. O lugar era frequentado por toda a galera do surf inclusive foi lá que o Bruno, Albertinho e o Montaury anunciaram para os amigos que iam fazer uma revista, e que ela teria um nome iraaaado… Fluir!

A diversão virou produção – Em seguida alugaram uma casa maior onde começou a Summer Birds e então a coisa começou a ficar séria, Johnny se viu envolvido na fabricação de pranchas.

                                  summer

“Por volta da década de 90, bateu a depressão, eu já havia terminado a faculdade de desenho industrial na FAAP, meus irmãos todos trabalhando com a vida encaminhada, minha irmã mais nova fazendo a segunda faculdade e eu continuava a fazer prancha.” Na época trabalhar como shaper era opção pra vagabundo, um oficio completamente informal e que aparentemente não garantiria um bom futuro a ninguém.

A Summer Birds fechou as portas, o sócio foi trabalhar no negócio da família e em 93 Johnny tentou pela segunda vez a faculdade de odontologia, seguindo os passos de seu pai. “Pensei, agora eu paro de fazer prancha!” porém foi quando Luciano Leão o fez uma proposta que mudaria a sua vida. Luciano estava montando a Surface, fabrica de pranchas em Cambury, e queria que Johnny a administrasse para que ele pudesse se focar em outro projeto, a criação da primeira máquina de shape do mundo. “Eu dei risada, pô máquina para fazer shape?! Esse cara é louco! Agora trabalhar na praia… to dentro!”. No final de 94 pra 95 o projeto da máquina estava funcionando, em 96 começaram as vendas para fora do Brasil, para depois ganhar credibilidade aqui dentro.

Johnny ficou na Surface até 2000 quando apareceu a oportunidade de ele ir para a Europa ajudar na montagem das máquinas e treinar os funcionários de algumas fábricas de surf, entre elas a Pukas, a maior da Europa. Depois passou um tempo no Hawaii e em 2003 a Pukas lhe fez uma tentadora oferta de trabalho e ele voltou para o continente europeu, onde permaneceu até ano passado, 2014.

Pukas – Situada na Espanha, no litoral do País Basco, hoje com uma fabricação beirando 10.000 pranchas por ano, é a maior distribuidora e produtora de pranchas da Europa.

“A minha história dentro da Pukas é longa e complexa, o final não foi muito feliz para eles, mas foi um grande alivio para mim ter saído”.

De 2003 até 2008 Cabianca não podia assinar as pranchas que fazia, mesmo vendendo muito mais do que muitos shapers lá de dentro, pois havia uma certa resistência de brasileiros terem destaque dentro da fábrica.  “Nós brasileiros sempre vamos pagar por uma herança que não nos compete, mas que já está plantada.”

Passou a assinar Johnny Cabianca quando Gabriel Medina, com 15 anos, estourou no mundo do surf. Nos 6 anos seguintes tornou-se responsável pela gestão da fabrica e conseguiu que 75% dos funcionários fossem brasileiros de sua confiança.

                          

              equipe

Com a crise na Europa a Pukas foi afetada e houve uma série de mudanças na política da empresa que não agradaram a Johnny, então em 2014 ele preferiu sair. “Eles começaram uma politica de imagem que era bem diferente do que eu gostaria de fazer da minha imagem… a proposta de trabalho não tinha nada a ver com o que eu queria”.

Vinda para o Brasil- Em 2014 voltou para o Brasil e montou sua fabrica em Maresias, muito organizada por sinal, com a intenção de ficar por aqui pelo menos um ano, de forma a se desvencilhar da antiga empresa. Sem interesse em carregar o nome da Pukas, diferente de muitos que passaram por ela e a usaram de trampolim, ele mudou a logotipia, as artes gráficas que haviam criado para o Gabriel e prometeu ficar um ano fora do mercado Europeu e assim fez, não vendeu nenhuma prancha no continente e nem fez publicidade.

logo

 

sala

E o Brasil continua o mesmo – Voltou com alegria para o país, junto com sua esposa e seu filho que vai passar aqui seu primeiro ano de vida.

“Quando cheguei aqui pensei… Nossa esse ano eu vou estourar!  Doce ilusão, estamos quase em agosto e não entreguei 300 pranchas, aqui não existe nada favorável se você quer fazer algo sério e executar um projeto!” Johnny chateado comenta que tudo aqui no Brasil é mais difícil, ainda mais quando você depende de um monte de gente para fazer algo acontecer, as pessoas não são comprometidas, há atrasos de todos os lados, sem contar da dificuldade de conseguir material.

Fez elogios ao amigo e shaper Gulla (Progressionsection) que tem sua fabrica também em Maresias, dizendo que a qualidade dele é excelente e que ele faz um super trabalho de fabricação e entrega,  atingindo todo o litoral paulista, desde Peruíbe até Ubatuba, mas que devido as condições do país fica difícil dele continuar expandindo.

Planos futuros – No próximo ano Johnny vai voltar para a Espanha, mais especificamente em Zarautz a cidade que morava, e fazer sua fabrica. A cidade é litorânea e é muito procurada pelos europeus dos países do norte, além disso, fica próxima à divisa com a França, que tem um mercado de surf bem forte. No verão é a época de maior consumo de surf em todos os níveis, pranchas, roupas, escolas e surfcamps.

Ou seja, corram bater na porta do Johnny para fazer suas pranchas que logo menos só indo pra Europa!

#DicaDoShaper – Prancha para as garotas!

Para quem nunca subiu em uma prancha, a funboard é o melhor modelo.

Já as meninas que estão saindo da funboard e querem uma prancha menor o shaper sugere os modelos fish. Dica para acertar no tamanho: Sua altura mais dois dedos é um comprimento bacana para a prancha e ela deve ter uma boa largura. Exemplo: se pegar uma 5’10”, pedir uma largura de aproximadamente 19″.

Modelo de prancha do Johnny Cabianca que as meninas mais gostam: Modelo Medina, prancha que o Gabriel usou em Jeffreys Bay. Prancha fácil e confortável para as garotas.

Quando eu entrei na fabrica, logo vi essa pranchinha e me apaixonei!

 gabrielPara as meninas que buscam mais performasse, devem dar uma espiada no catálogo que ele fez para a Silvana Lima e conversar pessoalmente com o shaper.

               silvana

Surf feminino…  Johnny acredita que o problema do surf feminino é que os patrocinadores querem apenas explorar o lado da beleza, o que elimina uma grande quantidade de surfistas brasileiras com talento e isso não acontece só no Brasil. “As garotas tem que concorrer com meninas como a Anastasia Ashley que possuem milhões de seguidores nas redes sociais, conseguindo uma fortuna dos patrocinadores e não estão nas competições.”

Outro ponto é que existem garotas aceitando mixaria em troca de um patrocínio só para te-lo no bico e isso ocorre até mesmo dentro da elite do surf mundial como ele já ouviu a própria Silvana Lima comentar, coisa que ela nunca fez, “…sempre exigiu o justo”, segundo ele.

                                     silvana quebrando

A nível mundial ele diz que um movimento do surf feminino que se destaca é o europeu. “São excelentes atletas, não possuem tanto taleto, mas fazem um trabalho muito legal, são super respeitadas, realizam muitos campeonatos internos e trazem retorno aos patrocinadores, sabem que quando competem com estrangeiras não tem muitas chaces, mas continuam trabalhando forte, correm atrás.”

E aqui meninas, registramos mais uma história de vida para nos inspirar, façam na vida o que realmente gostam, com amor e o universo vai conspirar a favor!

Valeu Johnny pelo bate-papo e essa carinha de bravo é só nas fotos… Gente finíssima!

Contato: johnnycabianca@yahoo.com.br