Desde que a notícia saiu no segundo semestre do ano passado, os portais que divulgam informações sobre surfe foram à loucura. Pela primeira vez na história, mulheres e homens vão receber a mesma quantia nas premiações das competições de surfe. E não é importante “só” pelo dinheiro, mas pela mensagem que isso transmite ao mundo: a equidade entre os sexos é SIM uma realidade. E a luta não vai acabar por aqui.

É fato que o masculino recebe recebia muito mais visibilidade, que os surfistas têm muito mais patrocinadores e que, por esses dois fatores, o prêmio parecia fazer sentido, afinal a audiência e o dinheiro proveniente das vendas de produtos dos patrocinadores por causa da loucura dos fãs em ter tal roupa, parafina ou prancha são eram maiores que o feminino. Mas esse capítulo na história do surfe chegou ao fim e um novo livro começou a ser escrito em 2019 com a concretização das premiações iguais e com algumas atitudes que a WSL disse que vai tomar a partir de agora. Tais como:

  • Uma campanha de marketing global para ressaltar o circuito feminino, aumentando a visibilidade dos eventos e a relação dos fãs com o esporte;
  • Um programa regional de envolvimento da comunidade para meninas em todo o mundo, com a participação de atletas da WSL em clínicas institucionais em cada etapa do circuito mundial feminino para que novas gerações abracem o esporte;
  • Uma série de conteúdos que vai ser disponibilizada mês a mês contando a história de surfistas precursoras no esporte.

A primeira matéria dessa série é com a heptacampeã Layne Beachley, que nasceu em Manly, New South Wales (Austrália), e é a única atleta que venceu seis anos consecutivos (1998-2003). Nem um homem conseguiu essa proeza. Nem um. Só ela. Layne ganhou seu último campeonato em 2006 e saiu das competições profissionais dois anos mais tarde. Pra ler a entrevista com ela é só acessar esse link.

A busca de todas as mulheres pelo direito ao respeito, presente com o qual os homens são agraciados desde seu nascimento, começa desde muito cedo. Crescemos lutando pelo espaço onde nos faremos ser ouvidas, onde nos faremos ser respeitadas pelo nosso trabalho, conhecimento, experiência. E assim acontece em todos os âmbitos da sociedade.

No surfe essa batalha custou a ser vencida. Foram décadas de menosprezo com o surfe feminino, que culminavam com uma diferença estrondosa no pagamento das premiações. Mas as (e os) responsáveis pela organização dos eventos da WSL têm mudado isso ao longo dos últimos anos, como mostrou o jornalista João Carvalho em uma reportagem para o site da WSL em setembro do ano passado (matéria que usamos como base para os seguintes tópicos).

O aumento nos investimentos no surfe feminino proporcionou mudanças significativas no calendário esportivo da liga e nos “bastidores”.

  • Os eventos combinados (aqueles onde homens e mulheres competem juntos) aumentaram de quatro para nove;
  • De 2013 pra cá o calendário adicionou duas etapas anuais (eram 8 e agora são 10) e o prêmio em dinheiro por evento no WT feminino aumentou mais de 150%;
  • Mais de sessenta eventos estão marcados no calendário feminino para esse ano (2019);
  • Em 2016 foram incluídos dois eventos históricos: o Big Wave Tour em Pe’ahi e Mavericks (antes só surfados por homens);
  • Na estreia do evento em Surf Ranch (a piscina de ondas do Kelly), em 2017, duas equipes tiveram capitãs (Equipe Australiana – Capitã: Stephanie Gilmore e Equipe Europeia – Capitã: Johanne Defay);
  • Em 2017 foi eleita a primeira CEO feminina da WSL, Sophie Goldschmidt.

Agora, com o crescimento exponencial da liga, as transmissões ao vivo pelo aplicativo, site ou facebook e mais de 100 emissoras cobrindo os eventos e a chegada do esporte nas Olimpíadas em 2020, só podemos contar que a história siga, mesmo que devagar, construindo mais e mais capítulos onde as mulheres sejam protagonistas de seu próprio destino. E sendo bem clichê: que essa onda não termina nunca!

Vambora que o campeonato volta dia 3 de abril em Gold Coast e eu to doidinha pra ver nossas meninas quebrando tudo na Austrália.