Em algum lugar no globo elas raramente entram na água. Em seu mundo conservador do sul de Bangladesh, lhes foi dito que meninas decentes não podem nadar.

Há três anos atrás, uma menina avistou um salva-vidas deslizando sobre as ondas em uma prancha. Parecia mágica! Shoma Akthar, a caçula e mais confiante de seis irmãs disse ao surfista Rashed Alam quando saiu da àgua: “Eu quero fazer isso“, e ele respondeu:”Encontre-me amanhã de manhã“.

Foram várias semanas até Shoma ter coragem de ir ao encontro do salva-vidas. Sabia que a mãe não aprovaria qualquer coisa que a levasse a trabalhar na praia.

Se o que eu fizer não gerar dinheiro, minha mãe grita comigo e fico com medo dela“, disse Shoma.

Sabe aquele desafio juvenil, aquela revolta adolescente que nos leva a fazer o que queremos, indo contra tudo e todos? Pois é, foi assim que o surf apareceu à Shoma quando se rebelou! Ela começou a dedicar de uma à duas horas  (que deveriam ser de trabalho) no final de sua manhã para cair na água. Observada pelas demais meninas, Shoma começou a ser seguida ganhando então novas companhias.

Para as oito meninas com idades entre 11 e 14, o surf ajudou a recuperar uma parte de sua infância. É um esporte que evoca liberdade e horizontes iluminados pelo sol – vivências não muito comuns na vida de uma menina em Bangladesh, um país de maioria muçulmana com 160 milhões de pessoas e uma das maiores taxas mundiais de casamento de crianças.

Junto com Shoma, essas oito garotas fazem parte de uma cena diária nas águas cinzentas da praia mais próxima. O treino é dado por Alam, 26, com pranchas velhas que cumprem bem sua função de deslizar sobre as ondas, desafiando os costumes tão antigos na Baía de Bengala.

Eu estava com medo das ondas, mas agora não estou mais“, disse Shoma, 14, falante, usando um batom à prova d”água, com o cabelo preso em um rabo de cavalo.

As jovens surfistas mantiveram seu novo passatempo em segredo por semanas antes de dizer a suas famílias.

Os pais das meninas as querem para trabalhar“, disse Alam, que enxerga como sua missão mostrar à comunidade que elas podem ter um futuro fora da casa.

Foto: Allison Joyce | Redux

Em Cox”s Bazar, uma cidade costeira e pobre perto da fronteira com Myanmar  a idade adulta muitas vezes começa cedo. As crianças de famílias pobres são tiradas da escola para vender alimentos e bugigangas caseiras aos turistas para que suas famílias possam ter o que comer.

Foi assim que Alam encontrou as os oito meninas (hoje em seu projeto de surf)  trabalhando para ganhar um ou dois dólares por dia, com o peso de suas famílias em seus ombros, tendo seus futuros pré determinados.

Minha vida se resumia em fazer jóias em casa, trabalhar, dormir, acordar e fazer mais jóias“, disse Mayasha, 14. Como muitas meninas em Bangladesh, ela tem apenas um nome.

Quando eu comecei a surfar, comecei a pensar em meus sonhos“, disse ela. “Agora eu sei que há muitas coisas que eu posso fazer.”

As meninas nunca poderiam ter tido essa chance se um dia um turista australiano não tivesse deixado sua prancha de surf para trás ao passar por Cox’s Bazar na década de 1990. Os garotos da região que encontraram a prancha foram os primeiros surfistas de Bangladesh, aprendendo a surfar numa das maiores praias de ondas ininterruptas do mundo.

Alam cresceu trabalhando na praia também, vendendo passeios a cavalo e espreguiçadeiras para os turistas. Ele aprendeu sozinho a surfar na prancha emprestada e ajudou a iniciar o clube surf Cox’s Bazar em 2008, que agora possui 55 membros e uma pequena coleção de pranchas e equipamentos de segunda mão, a maior parte deles doados.

Conseguiu um emprego como salva-vidas municipal e se jogou de vez no surf. Quando ele começou a ensinar as meninas, foi como se tivesse encontrado sua vocação.

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Foto: Allison Joyce | Redux

Uma das mais jovens aprendizes é Johanara, 11, que estava apavorada e lutou durante meses para equilibrar-se sobre uma prancha. Quando ela finalmente se levantou, Alam vibrou como se fosse a sua primeira vez em pé! “Foi o melhor momento da minha vida“, disse ela.

O pai de Johanara, Mohammed Gulab Hussein, é pintor de casas e vem lutando há meses para conseguir um trabalho fixo. Sua mãe, muitas vezes pedia à Johanara e seu irmão de 8 anos  para trabalharem na praia até anoitecer, arrastando um barril cheio de garrafas de água, chips e cigarros para serem vendidos.

Eu tento incentivar minha filha“, disse Hussein. “Mas ela é a nossa mais velha e precisamos dela para sustentar a família.

Nenhum dos pais reagiram bem ao ouvir que suas filhas foram surfar. Além do perigo, eles ficam preocupados com a reputação das meninas em uma sociedade profundamente machista.

O que não falta são fofocas, chegando até a perseguições na rua. Alguns pais disseram que os homens mais jovens foram à suas casas acusando as meninas de se comportar de forma inadequada, além de ameaçarem dizendo que as “aguardam na praia”, disse Venessa Rude, esposa de Alam, que veio pela primeira vez ao Cox’s Bazar há quatro anos como voluntária para uma instituição de caridade.

Uma coisa é clara, ninguém está acostumado a ver as meninas confiantes como estão.

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Foto: Allison Joyce | Redux

O pai de duas irmãs, de 13 anos de idade, Rifa e 11 anos de idade, Aisha, deixou claro seu descontentamento com a nova atividade das filhas,  através de um hematoma em Rifa. As meninas tinham crescido com tanto medo de seu pai que, quando o viam chegando na cidade se escondiam. Medo que passava dentro d” àgua.

Várias vezes, a mãe de Shoma, Maryam Katho, foi à praia para arrastar sua filha de volta ao trabalho.

Ano passado, Shoma desapareceu da praia por uma semana. Sua amiga companheira de surf, Sumi descobriu que Shoma tinha sido levada para trabalhar como empregada doméstica para uma família nas proximidades, e foi atrás dela trazendo-a de volta para casa.

O desafio de ajudar suas alunas e conquistar a confiança de seus pais é grande para Alam. O professor convenceu a mãe de Shoma que a filha não deve trabalhar como empregada doméstica, porque ela estava se tornando um surfista talentosa. Alguns meses mais tarde, Shoma conquistou o terceiro lugar em uma competição local e ganhou US $ 40, o equivalente a dois meses de salário como uma empregada.

Para comemorar, ela e sua mãe Katho, embarcaram em um ônibus para a cidade vizinha, Chittagong numa viagem de um dia, sendo a primeira viagem em família a ficar na memória.

A mãe de Shoma tem apoiado o passatempo da filha. Uma noite, em sua casa, ela riu quando perguntaram se era de sua vontade que Shoma se casasse em breve, como suas irmãs. A mãe não pensou duas vezes e respondeu: “Ela vai se casar, quando ela quiser, afinal, ela poderá estar surfando no Havaí um dia.”

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Foto: Allison Joyce

Para mostrar que o surf pode levar a uma carreira, Alam começou a treinar algumas das meninas na esperança de que algumas poderiam se tornar salva-vidas como ele, na parte da tarde as meninas fazem aulas de inglês sendo preparadas para o turismo ou para postos de trabalho em escritórios.

Com o fotógrafo americano Allison Joyce, Alam aprendeu a documentar suas histórias e as das alunas. No ano passado Joyce ajudou a criar um projeto de financiamento coletivo on-line para apoiar as famílias das meninas.

Todo mês, cada família recebe cerca de US$ 50 para cesta básica com arroz, sal, óleo de cozinha e outros bens essenciais – o suficiente para aliviar um pouco a carga financeira das famílias e da responsabilidade dada as meninas.

Sem essa ajuda,” Johanara disse, “minha mãe me faria parar de surfar.”

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Foto: Allison Joyce

Sob um céu cinzento pela manhã , as meninas se reúnem para a aula de salva-vidas com a lição número um: salvamentos de vítimas.  Johanara, vestindo sua túnica cor de tomate, esperou a sua vez na beira da praia, Alam assoprou seu apito e ela correu para dentro da água.

A mãe de Johanara tinha descido para a praia com um cesto de coisas para vender e dois de seus filhos mais jovens, ela puxou uma ponta do seu sari verde para proteger o rosto contra o vento enquanto examinava sua filha mais velha.

Johanara era ali no mar um pontinho distante vermelho, saindo radiante de alegria da água e muito longe para ver sua mãe sorrindo.

 

 

Ref.: http://www.latimes.com | por Shashank Bengali